Abandono no Ensino Superior em Portugal: Dados e Estatísticas de 2026
Cada ano letivo, dezenas de milhares de estudantes portugueses matriculam-se numa licenciatura, num CTeSP ou num mestrado — e uma parte significativa não volta a inscrever-se no ano seguinte. Os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), compilados no Anuário de Estatísticas da Educação 2023/2024, confirmam que a taxa de abandono escolar no ensino superior voltou a subir, atingindo valores máximos nos cursos técnico-profissionais. Este artigo reúne, numa única referência citável, todos os indicadores disponíveis: taxas por ciclo de estudos, variação regional e institucional, comparação entre o ensino público e privado, e os principais fatores explicativos.
Total de inscritos no ensino superior em 2023/2024
No ano letivo 2023/2024, estavam inscritos 448.235 estudantes no ensino superior português, de acordo com o inquérito RAIDES da DGEEC. Desses, 80% frequentavam o subsistema público e as mulheres representavam 54,2% do total. O crescimento foi modesto — cerca de 2.200 estudantes a mais do que no ano anterior — sinal de que o ritmo de expansão acelerado do início da década começa a estabilizar.
Destes 448 mil alunos, um subconjunto são estudantes em primeiro ano de ciclo. É sobre este grupo que a DGEEC calcula a taxa de desistência: a proporção daqueles que, após a matrícula inicial, não voltam a inscrever-se no ano letivo seguinte em qualquer instituição do sistema. A dimensão do fenómeno torna-se concreta quando se considera que, num único ano, cerca de 35.000 estudantes — de um universo de mais de 265.000 novos matriculados — saíram do sistema sem concluir o ciclo iniciado.
Taxa de abandono por ciclo de estudos
A análise por ciclo revela dinâmicas muito distintas. A tabela seguinte sintetiza os dados das edições de 2022/2023 e 2023/2024 das Estatísticas da Educação da DGEEC:
| Ciclo de estudos | 2022/2023 | 2023/2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Licenciatura | 11,10% | 11,2% | +0,1 p.p. |
| CTeSP | 26,9% | 28,1% | +1,2 p.p. |
| Mestrado Integrado | 3,6% | 3,0% | −0,6 p.p. |
| Mestrado de 2.º Ciclo | — | 15,0% | — |
Fonte: DGEEC, Estatísticas da Educação 2022/2023 e 2023/2024. Taxa calculada sobre novos inscritos que não renovaram matrícula no ano seguinte.
A licenciatura atingiu o máximo dos últimos oito anos em 2022/2023 com 11,10%, e o valor continuou a subir ligeiramente em 2023/2024. O CTeSP é, de longe, o ciclo mais crítico: mais de um em cada quatro estudantes abandonou no primeiro ano, com tendência de agravamento. Os mestrados integrados, frequentados tipicamente por estudantes com forte motivação e seleção mais exigente, mantêm o perfil de retenção mais sólido. Nos mestrados de 2.º ciclo, a percentagem de 15% de novos alunos sem renovação de inscrição traduz realidades heterogéneas: algumas desistências refletem inserção voluntária no mercado de trabalho ou mudança de projeto, e não necessariamente dificuldades académicas.
Um indicador paralelo merece atenção: em 2022/2023, 10% dos estudantes de licenciatura e mestrado integrado mudaram de curso ou de instituição — o valor mais alto desde 2015/2016 e 2019/2020, respetivamente. Esta mobilidade interna não contabiliza abandono formal, mas indicia desajustamento na escolha inicial e é um precursor de desistência futura.
Variação regional: interior vs. litoral
A geografia do abandono é profundamente assimétrica. Os dados do ano letivo 2021/2022 — os mais desagregados por região disponíveis nas publicações da DGEEC — mostram que o Norte regista taxas abaixo da média nacional, enquanto o interior e as ilhas a ultrapassam significativamente.
| Região | Taxa de abandono (2021/22) | Nota |
|---|---|---|
| Norte | 12,8% | Abaixo da média nacional |
| Alentejo | 19,8% | Uma das taxas mais elevadas do continente |
| Algarve | 17,6% | Acima da média nacional |
| Açores | 21,7% | Desceu de 26,1% no ano anterior |
Fonte: DGEEC / Visão, com base nos dados do RAIDES 2021/2022.
A investigadora Rosário Mauritti, citada pela Visão, identifica como causa principal nas regiões do interior a ausência de residências universitárias — não tanto o custo, mas a escassez da oferta. A maioria das instituições politécnicas do interior não dispõe de alojamento suficiente e a alternativa privada é residual, o que torna insustentável a situação de muitos estudantes deslocados.
Compreender a dimensão do abandono exige articulação com os dados de acesso: os estudantes que entram nas licenciaturas públicas provêm, em grande medida, do Concurso Nacional de Acesso, e as preferências geográficas moldadas por esse processo seletivo explicam parte da pressão estrutural que o interior enfrenta para atrair e reter alunos.
Ensino público vs. privado
Um dado contra-intuitivo emerge da comparação entre subsistemas. Em 2021/2022, pela primeira vez na última década, o ensino público registou uma taxa de abandono ligeiramente superior à do privado:
- Ensino público: 13,0% — subida contínua desde 10,2% em 2013/2014, com recuperação para 8,7% em 2018/2019 antes de retomar a tendência crescente.
- Ensino privado: 12,6% — descida consistente desde 15,8% em 2013/2014, com melhoria nos últimos três anos consecutivos.
A convergência dos dois subsistemas é significativa. O privado partia de posição mais desfavorável há uma década, mas melhorou de forma consistente — possivelmente pelo efeito de maior acompanhamento individual e modelos de suporte ao estudante mais ágeis. O público, que beneficia de propinas reguladas e de maior oferta de bolsas de ação social, sentiu o impacto do agravamento do custo de vida com maior intensidade nos estudantes deslocados sem suporte de alojamento público suficiente.
Cursos e instituições com taxas mais elevadas
Os dados divulgados pela DGEEC em 2025 e amplamente noticiados revelaram que existem 11 cursos onde todos os alunos inscritos desistiram no primeiro ano. Tratam-se, na sua maioria, de cursos com dimensões reduzidas, mas o dado é ilustrativo da concentração extrema do problema em nichos específicos.
Ao nível institucional, os politécnicos do interior registam as taxas mais preocupantes:
| Instituição | Taxa de abandono (1.º ano, 2021/22) |
|---|---|
| Instituto Politécnico de Tomar | 37,7% |
| Instituto Politécnico da Guarda | 29,1% |
| Instituto Politécnico de Beja | 26,9% |
| Instituto Politécnico de Castelo Branco | 19,8% |
| Universidade de Évora | 18,4% |
| Universidade do Porto | 7,0% |
| ISCTE-IUL (Lisboa) | 7,9% |
Fonte: DGEEC / Visão, dados de 2021/2022. A taxa do IP de Tomar representa um aumento de 20,3 p.p. ao longo de nove anos.
O IP de Tomar constitui o caso mais extremo: a progressão de 20,3 pontos percentuais ao longo de nove anos sinaliza deterioração estrutural e não apenas variação conjuntural. No polo oposto, as principais universidades das grandes cidades — Lisboa, Porto e Coimbra — mantêm taxas abaixo de 9%, beneficiando de maior procura, densa oferta de alojamento e perfis de entrada com maior capital académico prévio.
Principais fatores de abandono
Pressão económica e custo de vida
A subida das rendas nas principais cidades universitárias ao longo de 2021–2024 tornou o alojamento proibitivo para muitos estudantes deslocados sem acesso a residência pública. A inflação alimentar e energética comprimiu os orçamentos familiares, aumentando a probabilidade de saída precoce — especialmente em agregados de rendimento médio-baixo, que muitas vezes ficam acima dos limiares de elegibilidade para bolsas de ação social mas sem capacidade real de sustentar os encargos de deslocação.
Desajustamento da escolha inicial
A taxa de mudança de curso atingida em 2022/2023 (10%) indica que uma parcela relevante das saídas resulta de escolhas mal-informadas na entrada. O acesso ao ensino superior em Portugal estrutura-se em torno de notas do secundário e de provas de ingresso, e não necessariamente em torno de preferências vocacionais sólidas — o que alimenta arrependimentos e reorientações precoces.
Exigência académica e transição do secundário
O primeiro ano concentra a maior rigidez curricular e as unidades curriculares com taxas de aprovação mais baixas. A passagem do ensino secundário para o superior implica uma ruptura metodológica profunda, em especial no que respeita à produção escrita autónoma: relatórios, trabalhos de investigação, projetos. O modo como os estudantes respondem a esses desafios é crescentemente estudado — incluindo o papel de ferramentas de apoio à escrita académica e a forma como as universidades enquadram o uso responsável de IA nas dissertações e teses.
Efeito pós-pandemia
A tendência de alta do abandono acentuou-se nos anos letivos 2020/2021 a 2022/2023, coincidindo com a fase de recuperação pós-pandemia. A adaptação ao ensino presencial após períodos de ensino à distância impôs custos de reajustamento — particularmente nos estudantes matriculados durante o confinamento, que nunca experienciaram a vida académica presencial completa antes de chegarem ao campus.
Programas de retenção do Estado
Perante a tendência crescente, o Governo português lançou o Programa de Promoção de Sucesso e Redução do Abandono no Ensino Superior, que em 2024 distribuiu cerca de 10 milhões de euros a 282 instituições. O financiamento destina-se ao reforço do apoio psicopedagógico, à criação de tutoria por pares e à melhoria das infraestruturas de acolhimento para estudantes em risco.
O programa bolsa +Superior procura compensar a desvantagem geográfica, atribuindo incentivos financeiros a estudantes oriundos de regiões com baixa densidade que se matriculem em instituições do interior. Os valores complementam as bolsas regulares da ação social. Especialistas sublinham, porém, que o impacto só será sustentado se estas medidas forem complementadas por investimento direto em alojamento estudantil público nas regiões mais afetadas.
Fontes: DGEEC — Estatísticas da Educação 2023/2024; Governo de Portugal, Programa de Promoção de Sucesso e Redução do Abandono no Ensino Superior.
Para uma leitura complementar dos dados sobre o comportamento dos estudantes portugueses no ensino superior — incluindo o uso crescente de ferramentas digitais — consulte o artigo Uso de IA na Universidade: Estatísticas e Dados de 2026, que apresenta indicadores sobre a adoção de inteligência artificial em contexto académico em Portugal.
Perspetivas para 2026
A edição das Estatísticas da Educação da DGEEC relativa ao ano letivo 2024/2025 ainda não foi publicada à data deste artigo. Com base nas tendências disponíveis, é razoável antecipar o seguinte:
- CTeSP: a taxa poderá continuar a subir enquanto a procura por estes cursos crescer mais depressa do que as estruturas de apoio nos politécnicos do interior;
- Licenciaturas: a tendência de alta iniciada em 2019/2020 pode começar a estabilizar caso as medidas do Programa de Retenção produzam efeitos mensuráveis na coorte 2024/2025;
- Mestrados: o mestrado integrado deverá manter-se abaixo de 4%, enquanto o 2.º ciclo permanece sob pressão com a inserção precoce no mercado de trabalho como alternativa competitiva crescentemente valorizada.
O relatório DGEEC relativo a 2024/2025 está previsto para o segundo semestre de 2026, altura em que estes valores serão atualizados. Os dados primários encontram-se disponíveis em dgeec.medu.pt, na secção RAIDES e no portal Estatísticas da Educação.
A trabalhar na tua tese ou dissertação?
O Tesify é o assistente de IA criado especificamente para teses e dissertações em português. Estrutura capítulos, sugere fontes académicas verificadas e acompanha a tua redação com transparência e integridade — em linha com as políticas da tua universidade.
Perguntas Frequentes
Qual é a taxa de abandono escolar no ensino superior em Portugal em 2026?
Os dados mais recentes disponíveis, referentes ao ano letivo 2023/2024, indicam uma taxa de abandono de 11,2% nas licenciaturas, 28,1% nos CTeSP e 15% nos mestrados de 2.º ciclo. Os mestrados integrados mantêm-se em 3,0%. Os valores para 2024/2025 serão publicados pela DGEEC no segundo semestre de 2026.
Qual o ciclo de estudos com maior taxa de abandono em Portugal?
Os Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP) registam de longe a taxa mais elevada: 28,1% em 2023/2024, acima dos 26,9% do ano anterior. São cursos de dois anos, frequentemente localizados em politécnicos do interior, com populações estudantis que enfrentam maiores pressões económicas e de deslocação.
Que regiões têm o abandono no ensino superior mais elevado em Portugal?
As regiões do interior e os Açores apresentam taxas sistematicamente superiores à média nacional. O Alentejo registou 19,8% e os Açores 21,7% em 2021/2022. As maiores cidades — Lisboa, Porto e Coimbra — mantêm taxas abaixo de 9% nas suas principais universidades, beneficiando de maior oferta de alojamento e de estudantes com perfis de entrada mais consolidados.
Qual é a diferença entre abandono e mudança de curso no ensino superior?
O abandono contabiliza os estudantes que não renovam matrícula em qualquer instituição de ensino superior no ano seguinte à matrícula inicial. A mudança de curso ou de instituição — que atingiu 10% em 2022/2023 — refere-se a quem muda de percurso mas permanece no sistema. Ambos os indicadores são publicados anualmente pela DGEEC através do inquérito RAIDES.
O que está o Governo português a fazer para reduzir o abandono no ensino superior?
O principal instrumento é o Programa de Promoção de Sucesso e Redução do Abandono no Ensino Superior, que em 2024 atribuiu cerca de 10 milhões de euros a 282 instituições para apoio psicopedagógico e tutoria por pares. O programa bolsa +Superior fornece incentivos financeiros a estudantes deslocados para regiões do interior. Especialistas sublinham que o impacto só será sustentado com investimento paralelo em alojamento estudantil público.
Onde encontrar os dados oficiais sobre abandono no ensino superior em Portugal?
Os dados primários são publicados pela DGEEC — Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência — em dgeec.medu.pt, através do sistema RAIDES e do relatório anual Estatísticas da Educação. O INE e o Eurostat disponibilizam dados comparativos europeus. A série histórica sobre abandono no primeiro ano por ciclo e por instituição encontra-se na secção Ensino Superior do portal DGEEC.
